Horário de Verão: Como Evitar Apagões e Impulsionar Economia

Com o Brasil enfrentando uma das crises energéticas mais preocupantes dos últimos anos, a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) reacende o debate sobre a retomada do horário de verão como medida estratégica para evitar apagões e impulsionar a economia nacional. A proposta surge em meio aos alertas do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) sobre o crescente risco de desabastecimento energético, que saltou de 10% para alarmantes 30% para 2026. Esta situação crítica coloca o país diante de escolhas fundamentais: recorrer às poluentes termelétricas ou adotar soluções sustentáveis e economicamente viáveis como o horário de verão.
A medida, extinta em 2019 pelo governo federal, representa muito mais do que um simples ajuste de ponteiros do relógio. Trata-se de uma estratégia multifacetada que combina eficiência energética, estímulo econômico e responsabilidade ambiental. Com os reservatórios de água de São Paulo registrando os menores níveis em uma década e o sistema elétrico nacional operando no limite de sua capacidade, a retomada do horário de verão emerge como uma solução de baixo custo e alto impacto. A iniciativa promete aliviar significativamente a sobrecarga do sistema elétrico, especialmente durante o período crítico das 18h às 21h, quando o consumo atinge seus picos máximos.
O Cenário Crítico do Sistema Elétrico Brasileiro
A situação energética brasileira atravessa um momento de extrema vulnerabilidade. Os dados oficiais do ONS revelam um quadro preocupante: o risco de apagão triplicou em poucos meses, saltando de uma estimativa inicial de 10% para os atuais 30% em 2026. Esta escalada dramática reflete uma combinação de fatores estruturais e conjunturais que ameaçam a estabilidade do fornecimento elétrico nacional.
Os reservatórios de São Paulo, principais responsáveis pelo abastecimento da região mais industrializada do país, encontram-se em seus menores níveis em uma década. Esta situação crítica compromete não apenas a geração hidrelétrica, mas também coloca pressão adicional sobre o sistema como um todo. A redução da capacidade de geração hidráulica força o acionamento de fontes alternativas, muitas vezes mais caras e poluentes, criando um ciclo vicioso de dependência energética.
Desafios Operacionais do ONS
O Operador Nacional do Sistema Elétrico enfrenta dificuldades crescentes para controlar e estabilizar o sistema. A complexidade da matriz energética brasileira, combinada com a variabilidade das fontes renováveis e a crescente demanda por energia, cria um ambiente operacional desafiador. As oscilações de oferta e demanda tornaram-se mais frequentes e intensas, exigindo intervenções constantes para manter o equilíbrio do sistema.
A situação se agrava durante os horários de pico, quando o consumo residencial, comercial e industrial converge, criando picos de demanda que testam os limites da infraestrutura existente. É precisamente neste contexto que o horário de verão demonstra sua relevância estratégica, redistribuindo o consumo ao longo do dia e reduzindo a pressão sobre o sistema nos momentos mais críticos.
Horário de Verão: Mecanismo de Eficiência Energética
O horário de verão funciona como um instrumento de gestão da demanda energética, aproveitando a luz solar natural para reduzir o consumo de energia elétrica durante os períodos de maior demanda. Esta medida simples, mas eficaz, atua como um regulador natural do sistema elétrico, distribuindo a carga de consumo de forma mais equilibrada ao longo do dia.
A mecânica do horário de verão baseia-se no aproveitamento máximo da luminosidade natural durante o final da tarde e início da noite. Ao adiantar os relógios em uma hora, estende-se o período de luz natural disponível após o horário comercial, reduzindo significativamente a necessidade de iluminação artificial e climatização em residências, comércios e estabelecimentos de serviços.
Impacto Técnico no Sistema Elétrico
Do ponto de vista técnico, o horário de verão promove uma redistribuição da curva de carga energética, suavizando os picos de consumo que tradicionalmente ocorrem entre 18h e 21h. Esta redistribuição reduz a necessidade de acionamento de usinas de pico, geralmente termelétricas, que são mais caras e poluentes. A medida também diminui as perdas na transmissão e distribuição de energia, uma vez que reduz a necessidade de operação do sistema em sua capacidade máxima.
Estudos técnicos demonstram que o horário de verão pode reduzir em até 5% o consumo de energia elétrica durante os horários de pico, uma economia significativa quando considerada em escala nacional. Esta redução equivale à produção de uma usina de médio porte, representando uma economia substancial em investimentos em infraestrutura energética.
Benefícios Econômicos Diretos para Bares e Restaurantes
O setor de bares e restaurantes, representado pela Abrasel, destaca-se como um dos principais beneficiários da retomada do horário de verão. Com mais luz natural disponível no final do dia, estes estabelecimentos registram um aumento significativo no movimento de clientes, especialmente durante o período das 18h às 21h.
Dados fornecidos pela Abrasel indicam que bares e restaurantes podem experimentar um crescimento de até 50% no movimento durante o horário estendido de luz natural. Este aumento de frequência se traduz diretamente em incremento de receita, com potencial para gerar um acréscimo de 10% a 15% no faturamento mensal dos estabelecimentos. Para um setor que emprega milhões de brasileiros e representa uma parcela significativa do PIB nacional, este impacto econômico é substancial.
Efeito Multiplicador na Economia
O impacto econômico do horário de verão transcende o setor de alimentação fora do lar. O aumento da atividade em bares e restaurantes gera um efeito multiplicador que beneficia toda a cadeia produtiva. Fornecedores de alimentos e bebidas, empresas de logística, prestadores de serviços e trabalhadores informais são impactados positivamente pelo aquecimento deste setor.
A maior permanência das pessoas em espaços públicos e comerciais durante o período de luz natural também estimula o consumo em outros setores, como varejo, entretenimento e serviços pessoais. Este fenômeno contribui para a dinamização da economia local, gerando empregos e aumentando a arrecadação tributária municipal e estadual.
Perspectiva Ambiental e Sustentabilidade
A questão ambiental representa um dos argumentos mais contundentes em favor da retomada do horário de verão. Em um contexto onde o Brasil se prepara para sediar a COP30, maior conferência mundial sobre mudanças climáticas, a adoção de medidas sustentáveis torna-se imperativa para manter a credibilidade internacional do país em questões ambientais.
Paulo Solmucci, presidente-executivo da Abrasel, enfatiza a incoerência de recorrer às termelétricas justamente no ano em que o Brasil assume protagonismo global nas discussões climáticas. As usinas termelétricas, embora necessárias para a segurança energética, representam as fontes mais poluentes da matriz elétrica brasileira, emitindo grandes quantidades de gases do efeito estufa e outros poluentes atmosféricos.
Redução da Dependência de Fontes Fósseis
O horário de verão contribui diretamente para a redução da dependência de fontes fósseis ao diminuir a necessidade de acionamento de termelétricas durante os horários de pico. Esta redução tem impactos ambientais imediatos, diminuindo as emissões de CO2, óxidos de nitrogênio e outros poluentes associados à queima de combustíveis fósseis para geração de energia.
A medida alinha-se perfeitamente com os compromissos assumidos pelo Brasil no Acordo de Paris e com as metas de redução de emissões estabelecidas nacionalmente. Representa uma contribuição concreta para a transição energética sustentável, demonstrando que soluções simples e de baixo custo podem ter impactos significativos na pegada ambiental do país.
Apoio Popular e Aceitação Social
Contrariando possíveis resistências, pesquisa realizada pelo Reclame Aqui em parceria com a Abrasel demonstra forte apoio popular à retomada do horário de verão. Os dados revelam que 55% dos entrevistados são favoráveis à medida, indicando uma aceitação social significativa que facilita sua implementação.
A pesquisa também revela que 51,7% dos respondentes consideram que a medida é benéfica para o comércio e serviços, enquanto 43,6% acreditam que ajuda na economia de energia. Estes percentuais demonstram que a população compreende e valoriza tanto os benefícios econômicos quanto os ambientais da iniciativa.
Benefícios Sociais Identificados
Além dos aspectos econômicos e ambientais, a população identifica benefícios sociais diretos decorrentes do horário de verão. Entre os mais citados estão a maior sensação de segurança pública devido ao prolongamento da luz natural, o aumento do tempo disponível para lazer e convívio social, e o incentivo à prática de atividades físicas ao ar livre.
A extensão do período de luminosidade natural promove uma mudança positiva nos hábitos sociais, estimulando atividades ao ar livre e fortalecendo os laços comunitários. Parques, praças e espaços públicos registram maior utilização durante o período adicional de luz, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida urbana e para a promoção da saúde pública.
Análise de Impacto Econômico Nacional
O impacto econômico da retomada do horário de verão extrapola os benefícios diretos para bares e restaurantes, atingindo múltiplos setores da economia brasileira. A medida atua como um catalisador econômico de baixo custo, capaz de gerar benefícios desproporcionalmente maiores que seu investimento inicial praticamente zero.
No setor elétrico, a redução da demanda durante horários de pico traduz-se em economia substancial para consumidores e concessionárias. A menor necessidade de acionamento de usinas termelétricas resulta em contas de energia mais baixas para todos os brasileiros, uma vez que o custo marginal de geração diminui significativamente. Para as empresas distribuidoras, a redução dos picos de demanda permite melhor aproveitamento da infraestrutura existente e reduz investimentos em expansão da capacidade.
O setor de turismo também se beneficia substancialmente. Destinos turísticos registram maior movimento durante o período de horário de verão, especialmente aqueles que dependem de atividades ao ar livre. Praias, parques temáticos, estabelecimentos de entretenimento noturno e restaurantes turísticos experimentam aumento de receita que pode alcançar 20% a 25% durante a vigência da medida.
Perspectiva Comparativa Internacional
A experiência internacional com horário de verão oferece insights valiosos sobre os benefícios e desafios da medida. Países como Estados Unidos, Canadá e grande parte da Europa mantêm sistemas de horário de verão há décadas, adaptando-os às suas realidades climáticas e econômicas específicas.
Nos Estados Unidos, estudos do Departamento de Energia demonstram que o horário de verão resulta em economia anual de cerca de 1,3 terawatt-hora de eletricidade, equivalente ao consumo de aproximadamente 122 mil residências durante um ano inteiro. Esta economia representa não apenas benefícios ambientais, mas também redução de custos para consumidores e menor pressão sobre a infraestrutura elétrica nacional.
Lições da Experiência Europeia
A União Europeia, que atualmente debate o futuro do horário de verão em seus estados membros, acumulou décadas de experiência com a medida. Estudos europeus indicam que, além dos benefícios energéticos, o horário de verão contribui para a redução de acidentes de trânsito durante o período vespertino, uma vez que as condições de luminosidade permanecem melhores por mais tempo.
No contexto brasileiro, a experiência europeia sugere que os benefícios do horário de verão podem ser maximizados através de campanhas educativas que orientem a população sobre como aproveitar melhor o período adicional de luz natural. Países como Alemanha e França desenvolveram programas que vinculam o horário de verão a iniciativas de promoção de atividades físicas e uso de espaços públicos.
Perguntas Frequentes Sobre Horário de Verão no Brasil
1. Como o horário de verão contribui efetivamente para a economia de energia? O horário de verão aproveita a luz solar natural por mais tempo no final do dia, reduzindo a necessidade de iluminação artificial e climatização durante o período de maior consumo energético (18h às 21h). Esta redistribuição da demanda diminui os picos de consumo, evitando o acionamento de usinas termelétricas mais caras e poluentes. A economia pode alcançar até 5% do consumo nacional durante os horários de pico.
2. Quais setores econômicos são mais beneficiados pela medida? Bares, restaurantes e estabelecimentos de entretenimento são os principais beneficiados, podendo registrar aumento de até 50% no movimento e 15% no faturamento mensal. O setor de turismo, varejo ao ar livre, academias e prestadores de serviços também experimentam crescimento significativo. Indiretamente, toda a cadeia produtiva destes setores é impactada positivamente.
3. Por que o horário de verão foi extinto em 2019? A extinção em 2019 baseou-se em questionamentos sobre a real economia energética em um contexto de mudança da matriz elétrica brasileira. No entanto, a atual crise energética e os riscos de apagão demonstram que os benefícios da medida continuam relevantes, especialmente considerando a necessidade de reduzir picos de demanda e evitar dependência de termelétricas.
4. Como o horário de verão se relaciona com os compromissos ambientais do Brasil? A medida alinha-se diretamente com os compromissos assumidos no Acordo de Paris e com a liderança brasileira na COP30. Ao reduzir a necessidade de acionamento de termelétricas, contribui para a diminuição das emissões de gases do efeito estufa e fortalece o perfil sustentável da matriz energética brasileira. Representa uma solução de baixo custo com alto impacto ambiental positivo.
5. Qual o impacto social esperado com a retomada da medida? Além dos benefícios econômicos, o horário de verão promove maior sensação de segurança pública devido ao prolongamento da luz natural, incentiva atividades físicas ao ar livre, aumenta o tempo para convívio social e lazer, e estimula o uso de espaços públicos. Estes benefícios contribuem para a melhoria da qualidade de vida urbana e promoção da saúde pública.
Implementação e Desafios Operacionais
A retomada do horário de verão no Brasil requer planejamento cuidadoso e coordenação entre diferentes setores da economia e administração pública. A implementação bem-sucedida da medida depende de campanhas educativas eficazes, ajustes nos sistemas computacionais e de telecomunicações, e coordenação com setores críticos como transportes e saúde.
O setor de tecnologia da informação representa um dos principais desafios operacionais, uma vez que sistemas informatizados precisam ser atualizados para refletir a mudança horária. Bancos, empresas de telecomunicações, provedores de internet e sistemas governamentais devem sincronizar suas operações para evitar disruções nos serviços essenciais.
O setor de transportes também requer atenção especial. Companhias aéreas, ferroviárias e rodoviárias precisam ajustar seus horários e coordenar com sistemas internacionais para manter a conectividade e evitar confusões para passageiros. A experiência acumulada durante os anos de vigência do horário de verão no Brasil fornece base sólida para esta transição.
Conclusão: Uma Estratégia Integrada de Desenvolvimento Sustentável
A retomada do horário de verão representa muito mais que uma medida emergencial contra apagões. Constitui uma estratégia integrada de desenvolvimento sustentável que combina eficiência energética, estímulo econômico e responsabilidade ambiental. Em um momento crucial para o Brasil, onde a liderança na COP30 exige coerência entre discurso e prática ambiental, a medida surge como uma solução alinhada com as aspirações nacionais de sustentabilidade.
Os benefícios identificados pela Abrasel e confirmados por pesquisas de opinião demonstram que a sociedade brasileira está preparada e receptiva para esta mudança. Com 55% da população favorável à medida e claros benefícios econômicos para setores intensivos em emprego como bares e restaurantes, o horário de verão emerge como uma política pública com alto potencial de aceitação e impacto positivo.
A urgência da crise energética, com riscos de apagão saltando para 30% em 2026, torna a discussão ainda mais relevante. O país não pode permitir-se o luxo de ignorar soluções de baixo custo e alto impacto como o horário de verão, especialmente quando alternativas como termelétricas contradizem os compromissos ambientais assumidos internacionalmente.
Como destaca Paulo Solmucci, presidente-executivo da Abrasel, “a volta do horário de verão é uma pauta que une responsabilidade e desejo coletivo”. Esta convergência entre necessidade técnica, benefício econômico e aspiração social cria uma oportunidade única para o governo federal implementar uma medida que contribui simultaneamente para a segurança energética, crescimento econômico e sustentabilidade ambiental.
O momento é propício para uma decisão corajosa e tecnicamente fundamentada. O Brasil tem nas mãos uma ferramenta simples, eficaz e popular para enfrentar desafios energéticos, estimular a economia e reafirmar seu compromisso com o desenvolvimento sustentável. A retomada do horário de verão não é apenas uma escolha técnica, mas uma declaração de que o país está comprometido com soluções inteligentes e sustentáveis para seus desafios estruturais.
Apoia a retomada do horário de verão no Brasil? Compartilhe sua opinião e ajude a construir um debate público informado sobre esta importante medida de política energética e econômica.



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