Agronegócio Brasileiro: Digital Deixa de Ser Diferencial e Vira Infraestrutura Básica

Crédito foto: FD fotografia
A Nova Fronteira do Agronegócio Brasileiro: Digital Deixa de Ser Diferencial para se Tornar a Nova Infraestrutura Básica
Em um setor que é a espinha dorsal da economia nacional, o agronegócio brasileiro vive uma de suas mais profundas e aceleradas transformações. A imagem do campo como um lugar distante da tecnologia está sendo rapidamente substituída por uma realidade de tratores autônomos, drones que monitoram lavouras e inteligência artificial que otimiza cada etapa da produção. Nesse novo cenário, o digital deixou de ser um luxo ou um diferencial competitivo para se tornar premissa, a infraestrutura básica sobre a qual o futuro do setor será construído. Esta foi a mensagem central que ecoou durante o Congresso Andav 2025, o principal ponto de encontro da distribuição de insumos agropecuários do país, que se encerra nesta quinta-feira, 7 de agosto.
Realizado pela Associação Nacional dos Distribuidores de Insumos Agrícolas e Veterinários (Andav), o evento reuniu 15 mil profissionais em São Paulo para debater os caminhos de um setor em plena revolução. “Estamos vivendo um tempo em que o digital é premissa”, afirmou Walter Longo, sócio-presidente da Unimark e um dos palestrantes do congresso. “A IA é o copiloto com capacidade para ver o que não enxergamos. São os supervisores digitais silenciosos”. Contudo, a tecnologia por si só não basta. O congresso também jogou luz sobre outros pilares igualmente cruciais para a sustentabilidade do setor: a urgência de uma comunicação mais eficaz e a necessidade de uma cultura organizacional forte, que coloque a gestão de pessoas no centro da estratégia. Este artigo aprofundado irá explorar os principais insights do Congresso Andav 2025, detalhando a revolução da tecnologia no campo e a crescente importância do capital humano para o sucesso do agronegócio.
Tecnologia e Inovação: O Campo Conectado e os Desafios da Escala
A promessa da agricultura digital e de precisão é imensa. A capacidade de usar dados para tomar decisões mais assertivas já gera economias tangíveis e impressionantes. Segundo Frederico Logemann, head de estratégia de inovação da SLC Agrícola, um dos debatedores no evento, a simples análise de dados sobre a rotação de motores pode garantir uma economia de R$ 10 milhões ao ano em diesel para uma grande operação. “Tendo a fazenda conectada vemos o uso, os equipamentos e os softwares que podem ser aplicados. São gerados indicadores e mensurados ganhos”, explicou Logemann.
No entanto, um gargalo persistente impede que todo o potencial da tecnologia embarcada em máquinas e equipamentos seja aproveitado: a conectividade. “A questão é como escalar tecnologia e, nesse ponto, a conectividade ainda é um dificultador”, apontou Gustavo Spadotti, chefe-geral da Embrapa Territorial. Sem uma conexão de internet estável e de qualidade no campo, o acesso à agricultura digital em tempo real fica limitado. Renato Coutinho, gerente sênior de Desenvolvimento de Negócios da TIM Brasil, destacou os esforços para superar esse desafio, como a iniciativa ConectarAgro, que já conectou 23 milhões de hectares. A solução passa por detectar os pontos convergentes entre fabricantes de máquinas, operadoras de telefonia e produtores para criar um ecossistema de colaboração.
A IA como Copiloto: A Mudança de Paradigma na Tomada de Decisão
O impacto mais profundo da Inteligência Artificial no agronegócio brasileiro está na mudança da forma como as decisões são tomadas. “Antes, os líderes se apoiavam na experiência. Agora, precisam se apoiar na inteligência de dados para transformar despesas fixas em variáveis e desintermediar as operações”, definiu Walter Longo. A IA funciona como um “copiloto”, um supervisor digital silencioso capaz de analisar um volume de variáveis que o cérebro humano não consegue processar, identificando padrões e prevendo cenários.
Essa transformação exige uma nova mentalidade da liderança. A intuição, segundo Longo, não perde seu valor, mas ela se torna uma “nova habilidade”, que deve ser combinada com a análise de dados. O líder do futuro no agro não é aquele que tem todas as respostas baseadas em sua experiência passada, mas aquele que sabe fazer as perguntas certas para os dados e que tem a flexibilidade mental para adaptar sua estratégia com base nos insights gerados pela tecnologia. “Quem não mudar a forma de pensar, não conseguirá acompanhar a velocidade das transformações que estão por vir”, finalizou.
Comunicação no Agro: O Desafio de Contar a Própria História
Apesar de toda a força econômica e tecnológica, o agronegócio brasileiro ainda enfrenta um de seus maiores desafios no campo da comunicação. A percepção do setor pela sociedade urbana é muitas vezes distorcida por narrativas negativas e desinformação. “Se eu pudesse resumir o maior desafio do agro hoje em uma palavra, ainda seria Comunicação”, afirmou a produtora rural e influenciadora digital Camila Telles. “O problema não é o que fazemos, mas o que não contamos”.
Telles, que defende o setor desde os 9 anos de idade, reforça que a comunicação precisa ser uma prioridade estratégica, indo além das redes sociais e permeando todos os pontos de contato onde o agro é criticado. Durante o Congresso Andav 2025, o reconhecimento da importância da comunicação foi materializado com a homenagem ao jornalista e relações públicas Enio Campoi, sócio-diretor da Mecânica de Comunicação Estratégica, por sua contribuição pioneira na divulgação do setor em nível nacional e internacional. A mensagem é clara: o agro precisa ser protagonista de sua própria narrativa.
Análise de Impacto: Cultura Organizacional e Gestão de Pessoas como Pilares do Crescimento
Em um cenário cada vez mais competitivo e tecnológico, o diferencial que garante a sustentabilidade de uma empresa a longo prazo não está apenas em suas máquinas ou softwares, mas em suas pessoas. O tema da cultura organizacional e da gestão de pessoas foi um dos pilares do Congresso Andav 2025. Tatiane Tiemi, CEO do Great Place to Work, foi enfática ao afirmar que colocar as pessoas no centro do negócio é o caminho para a alta performance.
“Melhorar a performance das empresas começa por contratar bem, de acordo com a estratégia da empresa, com foco na cultura organizacional”, destacou. Segundo ela, as organizações que priorizam a maximização do potencial humano, a inclusão, a equidade e as boas práticas de gestão são as que melhor performam no mercado. Uma cultura forte, construída por líderes conscientes e baseada em valores claros, não apenas atrai e retém os melhores talentos, mas também cria um ambiente onde a inovação floresce. Um ambiente de trabalho saudável, diverso e acolhedor, segundo Tiemi, impacta diretamente nos resultados do negócio, tornando as empresas mais resilientes e preparadas para o futuro.
Perspectiva Comparativa: O Agro 1.0 vs. o Agro 4.0
A transformação vivida pelo agronegócio brasileiro pode ser entendida como a transição do Agro 1.0 para o Agro 4.0.
- Agro 1.0: Baseado na experiência, na tradição e na força de trabalho manual. As decisões eram tomadas de forma intuitiva, e a tecnologia era rudimentar. A gestão era focada na produção, com pouca atenção a dados ou ao capital humano.
- Agro 4.0: É o agronegócio da era digital. Conectado, automatizado e orientado por dados. A tomada de decisão é híbrida, combinando a experiência humana com a inteligência artificial. A gestão é holística, enxergando a tecnologia, os processos e, fundamentalmente, as pessoas como partes de um sistema integrado que busca eficiência, sustentabilidade e alta performance.
O Congresso Andav 2025 deixou claro que o setor já cruzou essa fronteira. O desafio agora não é mais “se” a tecnologia será adotada, mas “como” ela será integrada de forma eficaz e “quem” serão os profissionais qualificados e engajados para operar essa nova realidade.
Perguntas Frequentes sobre os Temas do Congresso Andav
- O que é a Andav? A Andav é a Associação Nacional dos Distribuidores de Insumos Agrícolas e Veterinários. Com 35 anos de história, ela representa mais de 3.800 unidades comerciais que são responsáveis por levar conhecimento, produtos e serviços para a cadeia produtiva do agronegócio em todo o Brasil.
- O que é agricultura de precisão? É uma abordagem de gestão agrícola que utiliza tecnologia da informação (como GPS, sensores e drones) para coletar dados e otimizar as decisões de plantio, aplicação de insumos e colheita, visando aumentar a produtividade, reduzir custos e minimizar o impacto ambiental.
- Como a IA ajuda a economizar diesel em tratores? A IA pode analisar dados de telemetria dos motores, como rotação, velocidade e consumo, em diferentes condições de terreno e operação. Com base nessa análise, ela pode recomendar a rotação ideal do motor para cada tarefa, garantindo a máxima eficiência e reduzindo o consumo de combustível sem perda de performance.
- O que é o “Great Place to Work”? É uma consultoria global que ajuda organizações a obterem melhores resultados de negócios, concentrando-se na experiência de trabalho de todos os funcionários. Eles são mais conhecidos por sua certificação e pelo ranking anual das “Melhores Empresas para Trabalhar”.
- Qual a importância da comunicação para o agronegócio? A comunicação é vital para construir e proteger a reputação do setor, esclarecer desinformações sobre temas como sustentabilidade e uso de defensivos, atrair talentos, fortalecer relações com o governo e a sociedade, e abrir novos mercados internacionais, mostrando a qualidade e a sustentabilidade da produção brasileira.
Conclusão: O Futuro do Agro é Mental, Digital e Humano
O Congresso Andav 2025 consolidou a visão de um agronegócio brasileiro que já opera em uma nova dimensão. A tecnologia digital não é mais uma opção, mas a base sobre a qual a competitividade futura será construída. No entanto, o evento também deixou um recado claro: a mais avançada das tecnologias é ineficaz sem o talento humano para operá-la e sem uma cultura organizacional que promova a inovação e o bem-estar.
O futuro do campo, como apontado pelos especialistas, é uma fusão de mentalidade, tecnologia e humanidade. Exigirá líderes com uma nova forma de pensar, capazes de usar a intuição como aliada dos dados. Exigirá investimentos contínuos para superar o desafio da conectividade. E, acima de tudo, exigirá um foco renovado nas pessoas, na comunicação e na construção de uma cultura que não apenas adote a inovação, mas que a impulsione de dentro para fora.
Quer se aprofundar nas tendências que estão moldando o futuro do agronegócio? Acompanhe as publicações da Andav e participe dos próximos eventos para se manter atualizado sobre a vanguarda da tecnologia e gestão no campo.



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