Integração de sistemas define o futuro da IA na saúde

Sistemas legados e baixa integração ainda limitam eficiência operacional e avanço de iniciativas digitais no setor

A adoção de Inteligência Artificial (IA) na saúde brasileira ainda esbarra em entraves estruturais que vão além da disponibilidade de tecnologia. Apesar do avanço das ferramentas e do aumento de casos de uso, limitações na integração de sistemas e a fragmentação de dados continuam sendo obstáculos para a escalabilidade das iniciativas.

As discussões ganharam força após a HIMSS 2026, principal conferência global de saúde digital, realizada em Las Vegas entre 9 e 12 de março. No evento e em debates subsequentes no Brasil, especialistas destacaram a necessidade de fortalecer a base tecnológica das instituições para viabilizar o uso consistente de IA.

Lideranças do setor se reuniram em São Paulo em evento promovido pela Softtek para discutir como governança de dados e interoperabilidade definem o futuro da inovação em saúde e apontam que, embora IA e interoperabilidade estejam no centro das estratégias digitais, o setor ainda enfrenta dificuldades práticas relacionadas à integração de sistemas como HIS, LIS e RIS — frequentemente operando de forma isolada.

Para Diego Pereyra, médico e Healthcare Global Director da Softtek, o desafio passa pela simplificação da jornada digital dentro das instituições. “A saúde ainda opera com processos excessivamente burocráticos. Enquanto tarefas simples exigem poucos cliques em outros setores, procedimentos hospitalares podem demandar dezenas de etapas. Reduzir essa complexidade depende de dados estruturados e revisão de processos”, afirma.

Na mesma linha, Adriano Candido, Vice-presidente de Negócios da Softtek Brasil, avalia que a discussão sobre IA tem migrado do campo da experimentação para a necessidade de sustentação operacional. “Existe um movimento claro de sair do piloto para a escala, mas isso só acontece quando há governança de dados e interoperabilidade. Sem essa base, a tecnologia não se sustenta no dia a dia”, diz.

Vantagem competitiva

A interoperabilidade, inclusive, tem deixado de ser um diferencial competitivo para se tornar um requisito técnico básico. Segundo Marcio Guimarães, Gerente Executivo de dados e transformação digital na Oncoclínicas&Co, a IA já apresenta ganhos concretos, especialmente na automação de tarefas administrativas, mas depende diretamente da qualidade e integração das informações. “O maior impacto hoje está na redução da carga operacional, permitindo que as equipes foquem mais no cuidado. Para isso, os dados precisam circular”, afirma.

Já Danielle Cunha, líder executiva de vendas em saúde na InterSystems reforça que a consolidação dessas iniciativas exige uma abordagem estruturada de dados. Segundo ela, a capacidade de organizar, integrar e disponibilizar informações em tempo real será determinante para ampliar o uso de IA no setor.

Outro ponto destacado é o impacto da tecnologia na rotina dos profissionais de saúde. Para Adriano Carvalho, Gerente Corporativo de TI no Dr.consulta, a IA tem potencial para reduzir tarefas operacionais e melhorar a eficiência. “Na prática, o valor está em liberar tempo das equipes para o atendimento ao paciente. A tecnologia precisa estar integrada à operação para gerar esse tipo de ganho”, afirma.

A avaliação geral é que o avanço da IA na saúde dependerá menos da adoção isolada de novas ferramentas e mais da capacidade das instituições de resolver desafios estruturais históricos. Nesse cenário, a organização dos dados, a modernização de sistemas e a simplificação de processos aparecem como pré-condições para que a tecnologia gere impacto real e sustentável.

Escrevo para o site Master Maverick há 10 anos, formado em Redes de computadores, mais curioso para todo o tipo de assunto!