Luto, liderança e inovação: como Andrea Mendes assumiu o protagonismo em um das indústrias mais conservadores do país

Conheça a trajetória da CEO do Grupo Hemocat e idealizadora da Cath Care, que transformou luto, desafios e inovação em propósito e protagonismo em um dos setores mais tradicionais do país

A história de Andrea Mendes começa cedo. Nascida em Viamão, no Rio Grande do Sul, aos 13 para 14 anos, enquanto muitas meninas ainda estavam descobrindo o mundo, ela já buscava independência. Vinda de uma família simples, formada por mulheres fortes e unidas, teve na mãe o maior incentivo para começar a trabalhar, mesmo com a resistência do pai. Foi a mãe quem a levou para tirar a carteira de trabalho e a ajudou a conquistar o primeiro emprego como recepcionista.

Determinada a construir uma trajetória sólida, investiu consistentemente em sua formação acadêmica. Além da experiência prática acumulada ao longo de mais de três décadas no setor da saúde, Andrea construiu uma base acadêmica para sustentar decisões estratégicas em um mercado altamente regulado e competitivo. É formada em administração pela Universidade Católica do Salvador – UCSAL, pós-graduada em Gestão Estratégica de Negócios pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e possui MBA em Administração com ênfase em Marketing de Serviços pela ESPM.

“Eu sabia que, se quisesse almejar algo maior, precisaria estudar e me desenvolver. Nada viria por acaso”, costuma dizer.

Da juventude à construção de um negócio do zero

Aos 18 anos, entrou na área da saúde, setor que definiria sua vida. Conheceu Francisco, que mais tarde se tornaria seu marido e sócio. Aos 20, recém-casados, decidiram morar em Salvador. Em 1992, nasceu a Hemocat. O início foi literal e simbolicamente pequeno: o escritório funcionava em um dos quartos do apartamento do casal, e o estoque cabia em um armário de duas portas.

Mas Andrea e Francisco identificaram uma grande lacuna no fornecimento de produtos de saúde na Bahia. Apostaram em inovação quando o mercado ainda era pouco regulamentado, a Anvisa sequer existia. Tornaram-se pioneiros na importação de tecnologias médicas ainda pouco difundidas no Brasil, construindo o DNA que até hoje define o grupo: inovação com responsabilidade.

Com o amadurecimento do setor, especialmente a partir dos anos 2000, a empresa deixou de ser um distribuidor regional para se tornar importador master, trazendo ao Brasil marcas e tecnologias inéditas. Em 2007, iniciou a expansão nacional e, em 2014, Andrea e a família se mudaram definitivamente para São Paulo, entendendo que a consolidação das grandes redes de saúde exigia presença estratégica.

Hoje, o Grupo Hemocat soma 33 anos de história.

Liderar em um setor tradicional e masculino

Embora a área da saúde concentre muitas mulheres, os cargos de comando ainda são predominantemente masculinos. Andrea viveu isso na prática.

Durante anos, mesmo dominando operações, gestão de pessoas e finanças, enfrentou situações em que sua voz só era ouvida quando o marido estava à mesa. “Muitas vezes eu tinha o domínio do assunto, mas precisavam que ele estivesse presente para validar o que eu dizia”. 

A construção de autoridade foi, e ainda é, um exercício diário.

Em 2018, a vida impôs o maior desafio: Francisco faleceu tragicamente. Além do luto pessoal, Andrea precisou assumir integralmente o protagonismo dos negócios, diante da equipe, do mercado e dos grandes grupos hospitalares, em um cenário de compras cada vez mais corporativas e concentradas.

“O homem é admirado por posturas que, muitas vezes, são criticadas na mulher. Assumir a linha de frente foi um processo de autoconhecimento e fortalecimento”, analisa. 

Ao mesmo tempo, quase morreu durante a Covid-19, viu a empresa atravessar dificuldades pós-pandemia e acompanhou o filho passar por um grave processo depressivo relacionado ao luto. Para Andrea, a dor virou combustível de transformação.

O olhar sistêmico sobre a saúde

Andrea observa de perto as mudanças estruturais do setor. Se antes o poder de decisão estava nas mãos do médico e do fornecedor, hoje ele se concentra nas grandes redes e operadoras de saúde, que pressionam por custos cada vez menores.

Para ela, esse movimento traz riscos. “O médico sempre foi o balizador ético da escolha terapêutica. O paciente confia nele. Quando enfraquecemos essa decisão, precisamos fortalecer a consciência da sociedade”.

Ela defende mais transparência, eficiência produtiva no Brasil para reduzir impacto cambial e menos desperdício na cadeia de saúde, tanto pública quanto privada.

É nesse contexto que nasce a Cath Care: uma indústria pensada para ampliar eficiência, fomentar produção nacional e garantir qualidade ao paciente em um sistema cada vez mais pressionado por custos. “O amadurecimento do setor exige fabricação local, inovação responsável e um paciente mais empoderado”, defende.

Energia feminina como diferencial competitivo

Para Andrea, o futuro da liderança está no equilíbrio. “Acredito em times mistos. O masculino e o feminino se complementam. Mas a energia feminina, menos competitiva e mais colaborativa, é essencial para o futuro da humanidade”. 

Ela reconhece o peso que muitas mulheres carregam: o cuidado com a família, a empresa, os pais, os filhos, e reforça que fortalecer redes de apoio é estratégico, não opcional.

Sua geração é analógica, mas ela se abriu ao digital, à exposição pública e à construção de autoridade no ambiente online. Entendeu que, para sentar nas mesas mais estratégicas do setor, precisava aparecer, posicionar-se e ocupar espaço.

Perpetuar o legado

Com 33 anos de Hemocat e uma nova fase com a Cath Care, Andrea Mendes simboliza uma geração de mulheres que começaram nos bastidores, muitas vezes associadas à figura masculina, mas que hoje assumem o protagonismo com competência técnica, visão estratégica e profundidade emocional.

Sua trajetória não é apenas sobre crescimento empresarial. É sobre reconstrução. Sobre luto transformado em liderança. Sobre inovação em um setor conservador. Sobre a coragem de ocupar espaços onde ainda pode ser a única mulher em uma sala repleta de empresários.

E, acima de tudo, sobre compreender que perpetuar um negócio exige mais do que estratégia: exige propósito, equilíbrio e a decisão diária de continuar.